quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Capacidades desenvolvidas pelo xadrez

Posfácio do livro “Meu primeiro livro de xadrez, curso para escolares” de Augusto Tirado e Wilson da Silva



Capacidades desenvolvidas pelo xadrez Antonio Villar Marques de Sá
Several valuable qualities of the mind are to be acquired and strengthened by Chess
Benjamin Franklin

Nos últimos anos, o tema xadrez e educação tem estado presente nos debates institucionais. Se, em países desenvolvidos, a utilização de jogos de estratégia em salas de aula já encontra considerável aceitação, o mesmo não se pode afirmar, salvo algumas exceções, quanto aos países em desenvolvimento. A primeira vista, não seria prioritária a implantação do xadrez em escolas públicas que, em sua maioria, possuem uma infra-estrutura deficiente: aos alunos faltam merenda, assistência social, jurídica, médico-dentária...; aos professores e funcionários, remuneração digna, condições satisfatórias de trabalho, material escolar, cursos de atualização...
Apesar das inúmeras condições adversas, é possível apresentar argumentos fundamentais em favor da utilização pedagógica do xadrez em escolas públicas, considerando-o, inclusive, como instrumento para o combate contra a evasão escolar.
Pesquisas confirmam esta hipótese, mostrando que a prática regular do "esporte-ciência" favorece um salutar desabrochar de qualidades pessoais da criança, em níveis afetivo e cognitivo, tornando-o uma atividade importante para seu desenvolvimento emocional e social.
Como dizia Fernando Pessoa, "O jogo de xadrez / Prende a alma toda, mas, perdido, / Pouco pesa, pois não é nada". Ou seja, ele propicia uma liberdade para a criança errar sem temer as conseqüências. Em um mundo onde ela tem poucas oportunidades de decidir, a partida de xadrez passa a ter uma função privilegiada, pois cada lance é precedido de uma análise e de uma tomada de decisão, o que contribui para o treinamento destas habilidades.
Em 1891, o psicólogo BINET, primeiro criador dos testes de Quociente de Inteligência e professor da Universidade da Sorbonne (Paris), iniciou suas experiências sobre algumas das possíveis contribuições do xadrez para o desenvolvimento intelectual. Suas conclusões, que abordaram a memória, a imaginação, o autocontrole, a paciência e a concentração, serviram de base para futuros trabalhos sobre o funcionamento do cérebro.
Em 1926, DIAKOV, PETROVSKY e RUDIK, psicólogos da Universidade de Moscou, foram encarregados pelo governo soviético de investigar o eventual valor educativo do xadrez. Eles verificaram que os enxadristas são muito superiores à população em geral quanto à memória, imaginação, atenção distribuída e ao pensamento lógico, passando então a recomendar este esporte como um método de autodesenvolvimento das capacidades intelectuais.
Em 1933, VYGOTSKY afirmou que "embora no jogo de xadrez não haja uma substituição direta das relações da vida real, ele é, sem dúvida, um tipo de situação imaginária". Pode-se dizer que, conforme propõe este grande psicólogo, através da aprendizagem do xadrez, a criança estaria elaborando habilidades e conhecimentos socialmente disponíveis, passando a internalizá-los, propiciando a ela um comportamento além do habitual de sua idade.
Em 1946, GROOT, psicólogo, matemático e enxadrista (representou seu país em três Olimpíadas), publicou seus estudos sobre o processo do pensamento dos mestres de xadrez. Este autor pensa ser capaz de confirmar a teoria da "concepção linear" de Otto Selz, considerando que cada momento do pensamento é determinado em sua totalidade pelo conjunto dos momentos que o precederam. Para ele, o pensamento no xadrez é essencialmente "não verbal".
Em 1981, CHRISTIAEN e VERHOFSTADT, psicólogos da Universidade de Gand, investigando a influência do xadrez no desenvolvimento cognitivo, observaram que alunos do Grupo Experimental a nível de 5ª série (5th graders) que receberam aulas de xadrez durante dois anos obtiveram resultados significativamente superiores em testes cognitivos do tipo proposto por Piaget, do que os do Grupo Controle que não as receberam.
Desde 1976, o Ministério da Educação da França patrocina as competições escolares oficiais e sugere às autoridades acadêmicas que incentivem o ensino do xadrez como atividade "sócio-educativa", como atividade "de estimulação cognitiva" e como "estudo dirigido". Neste país, inúmeras experiências, do Jardim-de-infância à Universidade, estão sendo implantadas.
Na década de 1980, com Karpov e Kasparov, o xadrez transformou-se no esporte número um da então União Soviética, e seus torneios escolares chagavam a receber um milhão de alunos.
Atualmente, cerca de 300.000 estudantes estão sendo beneficiados por uma resolução do Ministério da Educação da Holanda que autorizou a inclusão do xadrez como esporte escolar no currículo de 1º grau durante meia hora semanal.
Com este sucinto levantamento de trabalhos de pesquisa envolvendo o xadrez demonstrou-se o valor pedagógico e educativo deste esporte. Conforme discutido anteriormente, a atividade enxadrística está relacionada com o desenvolvimento de diferentes habilidades humanas, destacando-se a atenção, o autocontrole, a concentração, a imaginação, a memória, a paciência, e o pensamento lógico e a tomada de decisão.
Ainda se fazem necessários outros estudos em nível da pesquisa básica e aplicada nas áreas de psicologia, educação, matemática e informática para que todas as suas potencialidades sejam descobertas.

Curso de Xadrez para Iniciantes Aula 1 e 2



Vídeo "xadrez no Globo Esporte"


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